terça-feira, 17 de julho de 2012

O Pronome "você"

No Brasil, pelo menos em São Paulo, o pronome "você" praticamente extinguiu os pronomes pessoais "tu" e "vós". 
"Você" é o pronome de tratamento "vossa mercê (graça/concessão)", em sua questionável forma evoluída, que, inclusive, já foi "vossemecê", "vosmecê" e "voncê". No futuro, deverá ser apenas "cê".
Hoje, já há quem diga que "você" é pronome pessoal a depender da construção da frase! Completo absurdo! 
Eu desafio o leitor a encontrar um erro na seguinte frase proferida em uma conversa entre dois amigos,  em que Márcio elogia Alexandre: "Você é muito esperto!"
Bom, considerando que "vossa mercê" é formado por pronome possessivo e substantivo do gênero feminino, o correto seria o adjetivo também flexionar-se na forma feminina. Assim, embora a conversa se desenvolva entre duas pessoas do sexo masculino, a frase correta seria: "Você é muito espertA" (Vossa mercê/graça é muito esperta). Fenômeno de mesma natureza acontece com "a gente": Não importa se o grupo de pessoas que ele represente seja formado apenas por homens, eventual adjetivo deve concordar com o gênero feminino da expressão; Por exemplo, o time de futebol masculino dos santos, em referência à sua qualidade profissional, deve dizer: "A gente é boa jogadora". Afinal, sexo é diferente de gênero: As pessoas têm o primeiro; As palavras, o segundo.
Como tudo mais, mas principalmente no idioma, o errado vira certo pelo "uso consagrado" e, muitas vezes, cria-se regra gramatical para justificar estes "desvios". Para este caso, criou-se a "silepse de gênero". Silepse seria, então, figura de construção que trata da concordância que acontece não com o que está explícito na frase, mas com o que está mentalmente subentendido, com o que está oculto. É, portanto, uma concordância ideológica, que ocorre com a ideia que o falante quer transmitir. É também chamada de concordância irregular. 
Embora eu não tenha esperança de que a situação se reverta, gostaria de que os pronomes pessoais voltassem a ser adequadamente usados; Normalmente, eu evito o uso destes pronomes pessoais, especialmente do "vós", porque a minha fala pode parecer afetada e, ainda, passar a ideia de arrogância, embora os considere muito bonitos!